terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Resumo do livro “O Império do Grotesco”

SODRÉ, Muniz; PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: MAUD, 2002.

A obra O Império do Grotesco, de Muniz Sodré e Raquel Paiva, faz uma abordagem ampla para a presença do grotesco na comunicação massiva, dando ênfase a produtos midiáticos brasileiros, tais como a televisão, além de apresentar definições para o fenômeno, a categoria estética a qual pertence, sua classificação em gêneros e espécies e uma análise da presença do grotesco na literatura, no cinema e na televisão. 

De acordo com os autores é possível rir dos aspectos trágicos ou das desproporções das formas, contrapondo-se assim aos padrões do esteticamente correto. Entretanto, não se trata aí do mero feio, mas do grotesco, um tipo de criação estética possuidora de características que quase sempre tem a pretensão de provocar o riso. Esta possibilidade é a responsável pela permanência do grotesco na história bem como sua recorrência nas artes e nas mídias contemporâneas.

O grotesco tem, então, como característica principal a presença do rebaixamento (bathos, recurso estético produtor do riso cruel) operado por uma combinação organizada de elementos heterogêneos com referência constante a deslocamentos de sentido, animalidades, partes baixas do corpo, dejetos, entre outros. O grotesco funciona por catástrofe na medida em que surge através da quebra insólita de um cânone; é uma deformação inesperada. Essa desarmonia é a geradora do espanto, do riso, do nojo, do horror.

A palavra origina-se de la grota (“gruta”, “porão’, em italiano) e surgiu pela primeira vez no final do século XV em Roma para denominar os ornamentos estranhos nos porões do Domus Áurea. Durante o século XVII, a terminologia foi usada para definir o que fosse bizarro, fantástico ou extravagante, consequentemente tornou sinônimo também de cômico, ridículo e burlesco.

Quanto à classificação, Sodré divide o grotesco em Gêneros e Espécies em que  os primeiros mostram-se como representado, isto é, quando utiliza o suporte escrito – literatura e imprensa ou suporte imagístico, pintura, fotografia, cinema, televisão, entre  outros, ou atuado por meio de situações de comunicação direta, vividas ou encenadas nos palcos. O gênero Atuado subdivide-se, de acordo com Sodré e Paiva, nas naturezas  espontânea, quando episódios da vida cotidiana apontam para o rebaixamento espiritual  ou a irrisão, característicos do grotesco; natureza encenada, também chamado de  “burlesco” é  o grotesco revelado em peças teatrais, nas quais conquista-se o público  através de gestos corporais risíveis. A última natureza do gênero  atuado é a  Carnavalesca que remonta à Idade Média europeia e que vai desde os festejos populares  até o próprio Carnaval, provocadora do riso comunitário, segundo análise bakhtiniana, como uma crítica ao isolacionismo da época.

Com relação às Espécies do grotesco, os autores definiram quatro modalidades  expressivas, a saber:

1. Escatológico: Trata-se das situações que fazem referência a dejetos, secreções,  partes baixas do corpo, entre outros. Sodré e Paiva citam o exemplo de A Morte e a Morte de Quincas Berro D´água, o personagem  mediano descreve a tia Marocas como um “saco de peidos”.

2. Teratológico: São as referências risíveis a monstruosidades, aberrações, deformações, bestialismos, etc. Um exemplo é o personagem principal da obra O Corcunda de Notre - Dame, de Victor Hugo, e Bocatorta, de Monteiro Lobato.

3. Chocante: está presente nas duas formas anteriores e tem o objetivo de provocar no espectador ou contemplador um choque perceptivo, geralmente com intenções sensacionalistas, podendo ser chamado também de grotesco chocante.

4. Crítico: Dar-se quando o grotesco presente no  objeto visado expõe um discernimento formativo, ou seja, além da percepção sensorial do fenômeno, é desvelado o que se tenta ocultar (convenções, ideias) expondo de modo risível 5 os mecanismos do poder abusivo. Esse efeito pode tomar a forma da caricatura ou da paródia provocando inquietações nas situações estabelecidas.

Alfred Kubin, Homens-abutres, bico-de-pena.

Os autores frisam que o meio televisivo não manteve o mesmo padrão em todas as épocas e lugares, primeiro houve o domínio da televisão massiva com financiamento publicitário e audiência cotidiana e o  sistema de produção era serializado, homogeneizante com rígida divisão de trabalho. Depois apareceu a televisão segmentada, com rede multiforme, financiamento variado e audiência não necessariamente cotidiana. Mesmo com o advento da TV por assinatura, é a programação aberta a possuidora da maioria dos telespectadores.

Segundo eles, ela tem um ethos de “praça pública” – uma analogia às ideias de Bakhtin em Rabelais, a praça (ou feira) representa o local propício para as mais diversas manifestações da cultura popular, a exemplo da feira nordestina, onde há a presença de camelôs, repentistas, exibições de prodígios, etc. Este tipo de espaço mantém estreita ligação com a festa, palavra de origem latina que tem conotações religiosas e possui
forte ligação com o feriado, a festa e a feira pública.


Sodré e Paiva antecipam que o  ethos dos programas televisivos corresponde a uma espécie de  “comunicação do grotesco” em que o estranho e o repulsivo não têm outra finalidade se não gerar o choque perceptivo, que capta a atenção do espectador e o encaminha para um clímax sensacionalista.  No texto, o teratológico e o escatológico apenas referendam o clima gótico-fantástico da narrativa, alheios a qualquer entrelinha
crítica.

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